sábado, novembro 15, 2008

Último Metro por João Monge

ÚLTIMO METRO

Jardim Zoológico

Jazem verticais, dependurados. Os outros serpenteiam nos assentos com a cabeça almofadada na vidraça.

- Como se chama, menina?

- Aurora. E o senhor?

- Eu não sou um senhor, sou uma canção.

Praça de Espanha

Aos corpos somam-se corpos. E todos os corpos denunciam os ecos de tantas vidas. Cheiram a corpos os corpos que anoitecem; cheiram a perfume os que madrugam.

- O que faz uma canção a estas horas no Metro?

- Não faz nada. Vive!

S. Sebastião

Não é noite, não é dia; não cheira a manjericos nem a sangue; os relógios rolam pastosos no estranho limbo entre o tempo do que está feito e o tempo que está por fazer.

- A menina vai trabalhar ou acabou de sair?

- Não sei. Vivo entre dois mundos…

- Como a Canção de Lisboa…

Parque

- Acha possível encontrar o Jorge Palma por aqui, no último Metro?

- Não. Perde-o sempre! Costuma apanhar o primeiro do dia seguinte ou então vai a pé.

Marquês de Pombal

Sacodem-se da chuva inesperada os que acabaram de entrar. Frenéticos, picados pelas abelhas, envolvem numa estranha excitação os que dormiam de olhos abertos. Trocam-se olhares, cheiros e humidades. É o centro mais humano da cidade.

- Eu gostava de ser uma canção…

- Para quê?

- Para respirar na vida dos outros. Às vezes sinto-me frágil na minha.

Avenida

Uma mulher loura, de saia muito curta, com uns sapatos 44 de salto agulha ao tiracolo, fura pelos encafuados e dispara:

- Importam-se de se afastar para os lados?! Quero sentar-me aí no meio! Apetece-me ir para casa entre um sonho e uma canção.

Restauradores

- A menina, em que estação sai?

- Não sei…

- Eu saio na próxima, saio sempre no coração…

- Como o Palma?

- Sim. Velhos hábitos…

- Posso sair consigo?

- Claro, meu amor! Encosta-te a mim…

João Monge

2 comentários:

André disse...

Brilhante este texto de João Monge.
Para quem não sabe, João Monge é o escritor de "Senta-te aí", tema interpretado esta noite por Jorge Palma e João Gil, e de muitos outros temas bem conhecidos de todos nós.
Muitos dos Rio Grande, Cabeças no Ar, Luís Represas, são de sua autoria.
Para mais informações , pesquisem no google!!

Pêndulo disse...
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