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segunda-feira, janeiro 21, 2008

Te Já - 30 anos

Canções onde ainda há estrelas

"Estou a ouvir o disco Té Já, de 1977, o segundo da carreira de um Jorge Palma no ardor da juventude e em plena ebulição artística, política e pessoal.

O aniversário de 30 anos dessa sua segunda incursão no vinil é meio emblemático para mim, que só vim a conhecer a obra do Mestre em meados de 2006. E o meu primeiro sentimento, o mais forte e inconformado, foi não ter suas canções comigo há 30 anos! Faz-me falta, de certo modo, o tempo que vivi sem suas letras e músicas por absoluta ignorância da sua existência.

Em 1977 eu era uma universitária que estudava Comunicação, exacerbada e ardorosa defensora dos direitos políticos dos quais nós, brasileiros, tínhamos sido privados duas vezes em pouco tempo: primeiro em 1964, com o golpe militar que nos destituiu do Estado de direito, e depois em 1968, quando os ventos de liberdade foram definitivamente sufocados com o Ato Institucional nº 5, que instaurou entre nós os longos anos de chumbo. Passei, portanto, por todas as fases dessa sofrida derrota da cidadania brasileira, com idades entre 8 e 21 anos. O processo estender-se-ia até 1985, quando finalmente o povo conseguiu eleger um Presidente pelo voto: Tancredo Neves, que infelizmente não conseguiu tomar posse porque faleceu antes disso, vítima de uma traiçoeira diverticulite.

Lembro-me agora disto porque “Té Já” é um disco que ferve com as questões políticas da sua época, lado a lado com os altos e baixos do coração. No Brasil, Chico Buarque lançava no mesmo período canções como “Vai passar” e “Pelas tabelas”, que davam bem o tom do momento brasileiro. O mesmo Chico que acompanhara com alegria o processo de redemocratização de Portugal, e dedicara à Revolução dos Cravos, poucos anos antes, a antológica “Tanto mar”.

Em “Podem falar”, “Eu sei lá”, “Eles já estão fartos” e “A bem da civilização”, Jorge Palma retrata as desilusões da sua geração, entre o sonho da liberdade mal realizado e a angústia do que viria a seguir. Traça um painel pungente do abandono em que se encontravam as pessoas, da desintegração das famílias de fachada, da embriaguez da ambição desmedida e da vontade de reencontrar uma causa pela qual lutar.

Nas duas versões de “Ainda há estrelas no teu olhar”, observa-se um fenômeno recorrente na obra do cantautor: plantar a esperança, a fé no ser humano, a garra para seguir em frente. Há quem discorde, afinal há momentos ácidos e aparentemente descrentes em sua trajetória, mas a tendência mais forte que vejo é mesmo a esperança, o acreditar.

O amigo das plumas coloridas” é o toque jazzístico que muito bem traduz o virtuosismo e as experimentações de Jorge Palma ao piano, ele que trocou a chance de estar nas salas eruditas pela liberdade de improvisar e fazer a alma variar à vontade pelas notas, pelos sons que ouvia dentro da alma.

E depois – ou antes, ou durante, conforme a ordem em que se ouve ou a prioridade do espírito – vem o amor. O amor com todas as suas faces contundentes, como só Jorge Palma sabe mostrar. Amores sofridos, falidos, malfadados, felizes e bem resolvidos, amor de amigo, de irmão saudoso, amor por um certo bairro da capital... enfim, maneiras de conjugar o verbo amar em música, letra e paixão, sem nunca deixar de ser pessoal, parte envolvida, corpo e sangue de tudo o que canta e diz.

Em “Meio-dia”, Jorge Palma fala do tempo parado e dos desencontros. Nessa canção que sintetiza o disco, escolhida por ele para conter a expressão-título “Té Já”, fala sutilmente da saudade dos irmãos de sangue, que partiram pequenos para o Brasil, do sentido de família e da certeza do reencontro (de novo a esperança!).

É em “Té Já” que “Bairro do Amor”, um dos mais belos hinos que a sua obra já produziu, aparece pela primeira vez em cena com seu ritmo dolente, sua delicadeza poética e musical. A ode ao Bairro Alto sonha com um ideal de felicidade que Jorge adivinha entre as pessoas que circulam naquela noite democrática e partilhada, num espaço sem tempo onde todos se dão naturalmente, sem premeditar o futuro, e são solidários com a dor e a alegria dos outros. Nada mais comovente, simples e sincero do que o célebre refrão:

“Eh pá, deixa-me abrir contigo/desabafar contigo/falar-te da minha solidão...

Ah, é bom sorrir um pouco/descontrair um pouco/eu sei que tu compreendes bem!...”

Em “Há sempre alguém”, Jorge Palma sintetiza o desencontro-com-esperança, o resgate das coisas boas ao final das chuvas e trovoadas comuns aos relacionamentos amorosos. “Obrigação”, a bem-humorada crítica aos casamentos “perfeitos”, e “Meu amor (agora não fiques para aí a dormir)” aparecem em seqüência no alinhamento do disco. Estavam mesmo fadadas a ser tocadas juntas! Também esta dobradinha é um contraponto entre derrota e esperança, a doçura com que Jorge Palma sempre reveste os rompimentos amorosos, as separações, com base no que ficou de bom.

Finalmente, em “Quando a gente lá chegar”, a esperança se traveste num encontro alegre, forte, profundo e nem por isso fadado a durar para sempre. É a sua forma de celebrar a liberdade de amarmos como crianças, sem peso, culpa ou medida.

Musicalmente, “Té Já” é um disco esfuziante, com vozes variadas, profusão de ritmos e uma bem equilibrada alternância entre doçura e arrebatamento. Um disco que eu gostava de ter ouvido quando foi feito, pois os temas que Jorge Palma aí evoca teriam uma ressonância bem maior. O meu olhar é retrospectivo, mas mesmo assim posso sentir em toda a trilha aquela necessidade absoluta de levantar bandeiras, de envolver-se e marcar sua posição no mundo."



“Té Já” mostra que em 1977 já tínhamos um Jorge Palma com as linhas mestras do trabalho definidas, estruturado no formal e no essencial, e com imensa paixão e criatividade a transpirar de tudo. Nesses 30 anos que só pude ver em retrospecto, o artista teve enorme crescimento, mas a velha chama já estava lá, no “Té Já”, a brilhar forte no escuro, como as estrelas que Jorge Palma ainda guarda no olhar, em plena apoteose do seu talento extraordinário."



Artigo de Maurette Brandt


quinta-feira, janeiro 10, 2008

'Té Já- 30 anos

Ainda Há Estrelas No Teu Olhar (II)

Possas tu sempre ser
Um Homem Novo, sem preconceitos
Possas saber amar
Ver no espelho os teus próprios defeitos

Possas tu ter os ombros fortes
Para aguentar o peso da liberdade
E o coração de leão
Para não teres medo de encarar a verdade

Deixa-as viver, meu irmão...
Fá-las brilhar, meu irmão...
Ainda há estrelas no teu olhar


O
Blogue Palmaniaco encerra assim o ciclo de Letras do Álbum 'Té Já, sem poder deixar de referir que este álbum contempla um tema instrumental, " O amigo das plumas coloridas".


segunda-feira, janeiro 07, 2008

'Té Já- 30 anos

Há Sempre Alguém

A chuva varre as janelas do teu apartamento
A minha bagagem repousa ao abrigo do vento
E eu nem preciso de olhar para ti
Para saber o que esperas de mim
Tu queres-me fazer cumprir
Coisas que eu não prometi

Tu também sentes na pele o sopro da mudança
Mas ficas sentada na sala à espera da esperança
Aprendemos juntos a enfrentar o frio
Embarcámos juntos no mesmo avião
E agora tu queres parar...
Dormir na margem do rio

Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar
Ir nadar ao lado dele
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente

Dizes que não suportas ver-te sozinha ao relento
Mas tudo o que fazes é soltar o teu longo lamento
E eu vou para o meio da multidão
Não levo a virtude nem a salvação
Mas levo o meu calor
E uma guitarra na mão

E basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
Para me apetecer saltar
Ir nadar ao lado dele
Derretendo com o olhar
Todos os muros de gelo
E não consigo descansar
Enquanto não alcanço uma nova nascente

E quando te voltar a apetecer seguir em frente
Se me quiseres acompanhar
Canta uma canção de amor
Pinta os olhos cor de mar...
Põe no teu peito uma flor
Traz um amigo qualquer e vamos juntos abraçar o sol nascente

domingo, janeiro 06, 2008

'Té Já- 30 anos

Meio-Dia

Meio-dia...
Tudo continua igual nesta cidade
Onde tentam fazer de mim, o que eu não quero ser, não, não
E onde há sempre alguém que diz "agora é que vai ser...",
E o relógio diz meio-dia...
Como vai ser bom voltar às montanhas donde vim
Poder nascer de novo em plena liberdade
Onde há sempre alguém que diz "anda cantar..."

Cada dia mais distante
O meu irmão partiu
Cada dia mais ausente
A minha irmã ficou

Eu sei que um dia acabamos por nos reencontrar
Nalguma esquina sem luz, onde se queimem ilusões
Eu sei que um dia acabamos por nos cruzar
E dizer de novo... adeus

Cada dia mais distante
O meu irmão partiu
Cada dia mais ausente
A minha irmã ficou

Eu sei que um dia acabamos por nos reencontrar
Nalguma esquina sem luz, onde se queimem ilusões
Eu sei que um dia acabamos por nos cruzar
E dizer de novo ......'TÉ JÁ!...

quinta-feira, janeiro 03, 2008

'Té Já- 30 anos

A Bem da Nossa Civilização

Quando há pouco te ouvi conversar
Foi um prisioneiro em quem o carcereiro pode confiar
Quem eu ouvi falar

Mas os pontapés que vais evitando
Não se perdem, não, e é o teu irmão quem os vai apanhar
Desculpa estar-te a lembrar...

As coisas podem nunca parecer o que elas são
E é por isso que tu vais engolindo toda a droga que eles te dão
E se um dia fazes ondas de mais, tiram-te a ração...
A bem da nossa civilização!

Quando alguém tenta convencer-te
Que o dever é agir conforme o que ele decidir, ele não te está a ajudar
Ele só te está a usar...

A confusão aumenta em teu redor
E não te deixa abrir, não te deixa sentir que só tu podes saber
O que tens a fazer

As coisas podem nunca parecer o que elas são
E é por isso que tu vais engolindo toda a droga que eles te dão
E se um dia fazes ondas de mais, tiram-te a ração...
A bem da nossa civilização!

As coisas podem nunca parecer o que elas são
E é por isso que tu vais engolindo toda a droga que eles te dão
E se um dia fazes ondas de mais, tiram-te a ração...
A bem da nossa civilização!

quarta-feira, janeiro 02, 2008

'Té Já- 30 anos

O Bairro do Amor

No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém.
O bairro do amor foi feito a lápis de côr
Por gente que sofreu por não ter ninguém.

No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do Verão?


Eh pá , deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão.
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem.

No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café, de bar em bar.
No bairro do amor o Sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar.

O bairro do amor é uma zona marginal
Onde não há hotéis, nem hospitais.
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais.

Eh pá , deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão.
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem.

Bairro do Amor: Entre o Guincho e a Parede, antes do primeiro, depois da segunda. Estás a compreender?"
Jorge Palma (no livrete do álbum Palma's Gang - Ao Vivo no Johnny Guitar)

terça-feira, janeiro 01, 2008

'Té Já- 30 anos

Quando A Gente Lá Chegar

Trocaram o primeiro olhar numa manhã de Verão,
Quando a cidade se agitava em plena confusão.
Ela sorriu, ele sorriu e tudo foi tão natural
Que eles não perderam mais tempo e arrancaram em direcção ao Sol.

Ah! Quando a gente lá chegar
A coisa vai ter outra dimensão.
Ah! Quando a gente lá chegar
A coisa vai ter outra dimensão.

Treparam por degraus de espuma e mergulharam na luz.
Gotas de orvalho vieram brincar sobre os dois corpos nus.
O tempo parou, a guerra acabou e o Mundo era um grande jardim
Onde se ouvia uma estranha sinfonia sem princípio nem fim.

Ah! Quando a gente lá chegar
A coisa vai ter outra dimensão.
Ah! Quando a gente lá chegar
A coisa vai ter outra dimensão.

A pouco e pouco a terra voltou de novo a girar
E o tic-tac do relógio não tardou a soar.
Ela sorriu, ele sorriu e tudo foi tão natural
Que eles nem disseram adeus quando a noite chegou para os separar.

sábado, dezembro 29, 2007

'Té Já- 30 anos

Meu Amor (agora não fiques para aí a dormir)
Meu amor,
Parece que agora vou seguir sem ti
Subir e descer,
Correr na lama e voar outra vez...

Sei muito bem onde quero chegar
E sei que não há tempo a perder
Que a tua voz me possa encorajar!


Meu amor,
Agora não fiques para ai a dormir...
Um fato de marinheiro
Não chega para se entender o mar.

Espero que aprendas bem a remar
E espero que a luz do teu farol
Te possa sempre iluminar!

sexta-feira, dezembro 28, 2007

'Té Já - 30 anos

Obrigação

Sim, meu amor, está bem meu amor
Eu sei que tu tens razão
Dizia-te eu, às vezes, para acabar com a discussão...
E lá íamos vivendo
Entre dois copos e um bom colchão
Um futuro à nossa frente
E muito amor para mostrar a toda a gente.
Como era bem vivermos a dois
Sem nos darmos mal
(Uma canção estrangeira e um filme antigo no telejornal),
E uma noite tu disseste:
Já dei p'ra ti, meu... vou arrancar!
E lá fiquei eu, sozinho
A conversar com os meus botões
E a tentar descobrir a causa
Que nos levou a tal situação...
Já achei uma ideia que é bem capaz
De ser a solução:
Acho que nós passamos muito tempo
A misturar tripas com coração
E a verdade é bem diferente.

Para haver amor, não pode haver o-briga-ção.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

'Té Já - 30 anos


Eles Já Estão Fartos


Dizes que é uma miséria veres os teus próprios filhos
Transformados em vadios e drogados
O teu orgulho de pai está ferido

Apressas-te a culpá-los, mais à sua geração
Por não quererem alinhar na engrenagem
Que eles viram esmagar o teu pobre coração

Eles já estão fartos de saber o que tu queres deles
Eles já estão fartos de saber quem quer vendê-los
Eles já estão fartos de ouvir dizer: tem que ser
E agora eles tentam viver doutra maneira qualquer

Faz-te imensa confusão vê-los andar pelas ruas
Com o olhar fixo em qualquer ponto do espaço
E umas maneiras tão diferentes das tuas

Faz-te imensa confusão vê-los tristes e cansados
Para ti, eles não passam de uns preguiçosos
Contagiados pelas más companhias

Eles já estão fartos de saber o que tu queres deles
Eles já estão fartos de saber quem quer vendê-los
Eles já estão fartos de ouvir dizer: tem que ser
E agora, eles tentam viver doutra maneira qualquer

Quem é que os levou a ser assim tão frios e indiferentes
Para com os pais que tanto se esforçaram
Para que eles pudessem vencer toda a gente?

Quem é que os levou a ser tão ingratos e egoístas
Para quem não olhou a sacrifícios
Para que os seus filhos dessem nas vistas?

Eles já estão fartos de saber o que tu queres deles
Eles já estão fartos de saber quem quer vendê-los
Eles já estão fartos de ouvir dizer: tem que ser
E agora eles tentam viver doutra maneira qualquer

Eles já estão fartos de saber que a Guerra existe
Eles já estão fartos de saber que a Fome existe
Eles já estão fartos de saber que a Família existe
Eles já estão fartos de saber que a Igreja existe
Eles já estão fartos de saber que o Estado existe
Eles já estão fartos de saber o que os deixam fazer
Eles já estão fartos de saber o que os deixam fazer
Eles já estão fartos de saber o que os deixam fazer

terça-feira, dezembro 25, 2007

'Té Já- 30 anos

Eu Sei Lá

Eu sei lá
Se tu te estás bem nas tintas para aquilo que eu vou dizer.
Eu sei lá
Se vais fazer duas fintas, embarcar no teu copo e esquecer ...

Mas mesmo assim vou-te contar
A história de um homem vulgar
Que se convenceu que um dia um dia havia de enriquecer
E o gajo andou de lugar em lugar,
Passou toda a vida a fuçar,
Para poder comprar um caixão de luxo e adormecer.

Eu sei lá
Se uma jogada financeira chega a fazer alguém enlouquecer.
Mas eu já sei
Que existem muitas maneiras de enganar os cegos que não querem ver.


Neste preciso momento,
Os magnates do cimento
Discutem sobre a morte de mais um pomar.
Num gabinete fechado,
Os donos de um outro mercado
Decidem onde e quando outra guerra vai começar...


O Blogue Palmaníaco aproveita para desejar a todos um Bom Natal

segunda-feira, dezembro 24, 2007

'Té Já- 30 anos

Podem Falar

A coisa assim não dá, disse-me um dia o meu pai
Tu vives em sociedade e tens que perceber
Que as regras são para se cumprir... não sei se tu estás a ver, pá...
Ah, ah! - disse eu - Estou a ver muito bem...
Mas já agora diz lá que culpa tenho eu
Que no teu jogo existam cartas que não fazem sentido no meu...

Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.

As principais capitais aprendi eu no liceu,
Vi retratos de reis em tronos de ouro e marfim,
Mas ninguém me ensinou a nadar no rio que nasce dentro de mim.
Um dia pus-me a lutar, com as minhas contradições
Estive quase a morrer, mas acabei por escapar.
Para quem ama a liberdade o importante é nunca parar

Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.

Já vi muita gente a tentar agradar
A todo o gajo que pensa que nasceu para mandar,
Mas tenho visto muita gente que está só, a morrer devagar,
E a distância que existe entre o não ser e o ser
É uma questão de não se ter medo de ir longe demais.
O que ainda não tem preço é sempre o que vale mais.

Podem falar, podem falar,
Que o meu lugar é andar e o meu passo é correr
De vez em quando a cantar, de vez em quando a sofrer.
Podem falar, podem falar,
Mas estão a perder tempo se pensam que um dia me hão-de amarrar.

domingo, dezembro 23, 2007

'Té Já - 30 anos


Ainda Há Estrelas No Teu Olhar (I)

Sei que estás a sofrer
Que o teu homem foi-se embora outra vez
Partiu como um furacão
E tu só pensas no bem que ele te fez...

Tentas dormir
Mas o teu sono parece ter voado com ele
E a noite colou-se às tuas costas
Ai, disforme como um pesadelo.

Mas, ouve bem, meu amor:
Não é tarde para sorrires outra vez
Ainda há estrelas no teu olhar

E tu, conta lá como foi
Daquela vez que te deitaram abaixo
Não foi granada nem bala, não...
Foi só a perda de um pequeno tacho

Pobre de ti
Ficaste a refilar na bicha para um lugar ao sol (pois foi)
Continuas na sombra
E o teu corpo está cada vez mais mole.

Mas, ouve bem, meu irmão:
Não é tarde para sorrires outra vez
Ainda há estrelas no teu olhar

A ti, conheci-te num bar
Conversei contigo à beira do rio
O teu casaco era de pele
Mas nos teus olhos havia frio

Tu queres ser quem és
Mas o teu velho quer que sejas engenheiro
E tu sentes-te só
Como uma agulha num palheiro

Ouve lá bem, meu irmão:
Não é tarde para sorrires outra vez

Ainda há estrelas no teu olhar

sexta-feira, dezembro 21, 2007

'Té Já - 30 anos

LP Diapasão/ Sasseti DIAP 16009

1)Ainda Há Estrelas No Teu Olhar (I)
2)Podem Falar
3)Eu Sei Lá
4)Eles Já Estão Fartos
5)Obrigação
6)Meu Amor (Agora Não Fiques Para Aí a Dormir)
7)O Amigo das Plumas Coloridas
8)Quando A Gente Lá Chegar
9)O Bairro do Amor
10)A Bem da Nossa Civilização
11)Meio-Dia
12)Há Sempre Alguém
13)Ainda Há Estrelas No Teu Olhar (II)

Letras e músicas de Jorge Palma.

Músicos:

Jorge Palma (voz,piano,arranjos e direcção)
Júlio Pereira (guitarras)
Luís Duarte (guitarra baixo e contrabaixo)
Rão Kyao (saxofone e flauta)
Guilherme Inês (bateria)
Vítor Mamede (bateria)
Luís Pedro Fonseca (sintetizador moog)
Armindo Neves (guitarra)

Ficha técnica e Artística:

Gravação: Estúdios Valentim de Carvalho (Paço d'Arcos), a 20 de Junho de 1977
Técnico de som: Hugo Ribeiro
Capa: João Gentil e Henri Tabot
Grafismo: C. Augusto

'Té Já foi reeditado em CD no ano de 1994 (17 anos após a sua edição).

in Terra dos Sonhos

'Té Já- 30 anos



Neste ano que marca a consagração pelo público em geral de Jorge Palma, o Blogue Palmaníaco lembra os 30 anos da edição do segundo álbum de originais de Jorge Palma, com o registo Té Já. Um álbum repleto de composições e letras intervencionistas e como não podia deixar de ser, pródigo em retratos de vidas.

Ao longo dos próximos dias partilharemos os poemas que compõem este registo, alguns dos quais se transformaram em marcos da carreira de Jorge Palma, e presença constante nos seus concertos até hoje.