sábado, julho 14, 2007

Entrevista ao Correio da Manhã

Jorge Palma está inconsolável com o desaparecimento de uma das suas guitarras, a qual tinha para o músico 'um grande valor sentimental' por ter pertencido a Zeca Afonso.

O roubo, alegadamente perpetrado por um jovem de 19 anos de nacionalidade italiana, aconteceu no final de Janeiro, dias depois de um concerto que Palma efectuou em parceria com Manuel João Vieira (a 25 desse mês) no então recém-inaugurado espaço Music Box, em Lisboa.

“Mas a culpa também foi minha”, admite Jorge Palma. “Estive para ir lá buscar a guitarra antes e fui adiando, adiando, até que acabou por desaparecer”, conta em tom arrependido o músico, que diz ter ficado “muito em baixo” com o roubo da sua Martin D-41.

“Andei quase 20 anos para a comprar. Zeca Afonso tocou com ela e por isso tinha, sobretudo, um grande valor sentimental para mim”, acrescenta Palma.

O músico apresentou queixa às autoridades, que, inclusive, terão identificado o autor do crime através das câmaras de vigilância instaladas no Music Box. As imagens apontam para um jovem de nacionalidade italiana que está em Portugal a estudar no âmbito do programa Erasmus. O jovem estaria com mais três ou quatro amigos.

“Mas a questão agora é recuperar a guitarra. Isso era tudo o que eu queria”, reafirma Jorge Palma. É que, numa das várias versões contadas pelo jovem à Polícia, já a teria vendido por cem euros...

Palma, por seu lado, oferece uma recompensa bem melhor: “Estou, inclusive, disposto a dar outra guitarra a quem me devolver essa, que é muito importante para mim.”

Correio Êxito – Basta ver um único espectáculo seu para perceber que tem uma relação muito visceral com o palco. É nele que se realiza?

Jorge Palma – Sinto-me bem no palco. Fora dele sou tímido, em cima dele perco todas as inibições. Deixo a timidez no camarim, quer esteja à frente de mil pessoas ou de meia dúzia.

– Gosta de ir atirando umas ‘bocas’ ao público.

– Gosto sobretudo de conversar com as pessoas. De as olhar olhos nos olhos. O pior depois é para me lembrar das letras.

– Costuma usar cábulas?

– Claro. Sobretudo quando se tratam de canções novas.

– Mas quando tocava no metro de Paris tinha de saber tudo na ponta da língua.

– Sim. Não dá jeito nenhum andar pelas carruagens com as cábulas atrás. Mas também estava quase sempre a tocar as mesmas: Bob Dylan, Leonard Cohen (esse era mais para as esplanadas), Paul Simon, Eagles, sei lá...

– Nunca encontrou por lá o Sérgio Godinho?

– Por acaso encontrei-o uma vez! Estava a comprar tabaco numa estação. Também encontrei o Zeca Afonso e o Pedro Osório.

– Tocou na rua só por uma questão de sobrevivência ou sobretudo pela experiência?

– Pelas duas coisas. Mas sobretudo pela pica.

– Dava para viver do dinheiro que ganhava na rua?

– Uns dias corriam melhor que outros. Às vezes só dava para pagar o hotel. Noutros dias até podia comer ostras. Mas dava sempre para beber umas cervejas num café em Saint Antoine onde os músicos de todo o Mundo se encontravam: da Malásia, do México, de África, gente de todo o Mundo. Era a liberdade total. A única responsabilidade era gozar a vida, uma ‘obrigação’ que vinha do simples facto de estarmos vivos.

– Nunca acordava teso no dia seguinte?

– Muitas vezes. Mas tinha crédito no hotel. Acordava tarde, descia cá abaixo e tomava um pequeno-almoço que na verdade era também o almoço: comia geralmente uma omelete de cogumelos com fiambre e bebia um panaché – uma mistura de cerveja com Seven-Up. Eles sabiam que ao fim do dia vinha com dinheiro e pagava sempre.

– Que relação tem com os excessos?

– Sou, obviamente, uma pessoa de excessos. Talvez porque me deixo ir nas situações.

– Mas consegue pôr o travão a tempo de evitar danos maiores?

– Há o tal ponto limite mas, de facto, às vezes passo um bocadinho para lá. Mas quando quero tenho travões, porque a vida me ensinou. O momento de meter o travão é quando não me lembro do que fiz no dia anterior. Aí é a altura de mandar parar o baile, até porque já não se está a curtir. Então, passo uns dias a beber água e chá. Só que muitas vezes acontece não apetecer parar: até pode estar toda a gente sem dormir há dois dias, sem dizer coisa com coisa, com os olhos amarelos, mas apetece continuar assim...

– Nunca se arrependeu de nada?

– Se fosse há alguns dias, se calhar dizia que não. Mas na verdade há coisas que eu gostava de ter feito melhor.

– Tais como?

– Não foram coisas perversas mas tenho consciência que já magoei pessoas desnecessariamente. Podia ter tido mais jeitinho e mais consciência de que a outra pessoa também existe. Sou de humores variáveis. Salta-me a tampa com muita força e, às vezes, sou um bocado bruto e egoísta, mas tenho consciência disso e passa-me rápido. Isso, aliás, tem tudo a ver com os tais excessos.

– As relações humanas são sempre complicadas...

– Porque passam por sentimentos muito primários, como o ciúme, a desilusão, a solidão, a inveja, as frustrações. São instintos complicados... mas fazem parte da vida. Por isso é que o Mundo está neste estado. Se a gente conseguisse sempre ser um pouco melhor... mas isso tem a ver com a educação, o ambiente em que se cresceu. Há pessoas que nascem sem hipóteses nenhumas. Felizmente eu tive.

– Como lidavam os seus pais com o seu espírito libertário?

– Habituaram-se. À sua maneira, eles tinham também um espírito muito livre.

– Como assim?

– Os meus pais separaram-se na altura em que eu nasci e, como tal, a minha mãe teve de se empregar para que eu existisse. Foi empregada de escritório mas, antes disso, fazia o que as outras meninas todas daquela época faziam: tocava piano, andava de bicicleta, falava francês e sabia bordar. Era muito aventureira. Fartou-se de viajar e visitou países onde eu nunca estive. Depois contava todas aquelas histórias das viagens com um brilhozinho muito especial nos olhos. E a coisa que ela mais gostava era do filho único, que era eu.

– Então tinha muita coisa em comum com a sua mãe.

– Muitas mesmo. Se calhar por isso é que nunca nos demos como Deus e os anjos. Fazíamos faísca.

– E o seu pai?

– O meu pai era diferente. Tinha negócios, era um bom jogador de póquer e cantava – tinha, aliás, uma voz muito melhor que a minha. Ensinou-me imensos tangos e boleros. Enquanto a minha mãe estava ali todos os dias a educar-me, o meu pai aparecia sempre em festa, a guiar com uma mão e a tamborilar uma música no tablier com a outra. Era o ‘curtido’, quando a minha mãe era a ‘chata’. Curiosamente, quando muito mais tarde fui viver com ele, na altura da faculdade, já era mais ‘pai’. Dava-me sermões por chegar a casa às quatro da manhã.

– Depois teve mais irmãos?

– Quatro da parte do meu pai. Dois de uma madrasta e outros dois de outra madrasta. Todos a viverem agora no Brasil.

– Tem dois filhos, sendo que um deles já lhe seguiu as pisadas na música. Que valores procura incutir-lhes?

– A verdade das coisas acima de tudo.

– O seu novo disco, ‘Voo Nocturno’, tem o título de um livro de Saint-Exupéry. Qual a relação com este trabalho?

– É um daqueles livros que li com 18 anos e, depois, nunca mais me lembrei. Mas ficou cá dentro, em memória RAM. E quando estava a fazer o disco, lembrei-me de Saint-Exupéry, a sobrevoar o Quénia na sua avioneta. Nunca dirigi uma avioneta mas não está fora de questão.

– É um disco muito simples.

– É. Ao contrário do ‘Norte’, por exemplo, não tem todos aqueles arranjos de cordas. Era para haver um quarteto de cordas, marcámos, mas depois eu não apareci... Achei que era desnecessário.

– Compõe sempre ao piano?

– Não. À guitarra também: há canções que logo à partida sinto que são mais para guitarra, que o piano é demasiado pesado. Mas ao passo que tenho o Conservatório de piano, à guitarra sei apenas os acordes suficientes para desenrascar, para me sentar numa esplanada e tocar o ‘Blowing in the Wind’. Ah! E as às vezes também componho na esplanada, sem instrumento.

– Como faz isso?

– Vou tirando uns apontamentos.

– E as letras também surgem em qualquer lado, a qualquer hora?

– Sim. Às vezes, no meio de grande confusão, têm-me saído letras boas. Ou já na cama, antes de adormecer. O problema é quando não aponto, por preguiça e, depois, no dia seguinte, já não me lembro de nada, claro! Por isso é que vou tomando sempre umas notas. Escrevo muito nos guardanapos. Há quase sempre um à mão.

– Tal como diz o anúncio, a ‘vida inspira-o’?

– Sim. De todas as suas formas e feitios, nas suas agruras e ironias.

– Para lá da música, como é o dia-a-dia de Jorge Palma?

– É como o das outras pessoas todas. Também tenho de fazer as coisas da vida que todas as pessoas fazem. Por exemplo, tenho de fazer todas aquelas coisas que são um bocadinho chatas: ir ao banco, à Loja do Cidadão, à lavandaria.

– É anarquista por natureza ou só no que toca a burocracias?

– Sou mesmo anarquista! Tenho alguns daqueles defeitos óbvios: a preguiça que, como dizia o Erasmus no seu ‘Elogio da Loucura’, é a mãe de todos os vícios. Pontualidade é para esquecer. Não sou muito disciplinado, mas tenho a organização q.b.. É uma anarquia saudável. De outra forma não estava aqui a dar esta entrevista.

"COM OS AMIGOS JÁ PARTILHEI MUITAS HISTÓRIAS HISTÓRIAS, ESTRADAS E COMBOIOS“

– Rodeou-se de amigos famosos para filmar o videoclipe do tema ‘Encosta-te a Mim’...

– Ainda queria convidar mais. A lista inicial tinha para aí uns 120. Mas não havia a mínima hipótese de entrarem todos: o vídeo só tem quatro minutos. Ficaram apenas 28 e, mesmo assim, já foi uma grande confusão. Muitos deles estavam ocupados com outras coisas, mas arranjaram um tempinho para vir. Foi muito porreiro.

– Os amigos são muito importantes para si?

– São. Com alguns deles – e a maioria estão naquele vídeo – já partilhei grandes histórias, muitas estradas e comboios.

– Que histórias?

– Namoramos muito, quase sempre por telefone. Se estiver a ouvir um disco deles (do Janita, do Sérgio Godinho ou dos Da Weasel) mando-lhes uma mensagem, mesmo que sejam cinco da manhã. Faço muito isto. É uma espécie de namoro. E quando nos encontramos é uma festa. Os meus amigos têm muita pachorra: às vezes torno-me chato. Mas já se sabe, a conversa é como as cerejas...

– E na produção de ‘Voo Nocturno’, também esteve a seu lado um grande amigo, Flak (Rádio Macau).

– Talvez porque fiz a primeira canção (‘Encosta-te a Mim’) ali na rua do Olival, junto às Janelas Verdes, no estúdio dos Rádio Macau. Gravei a voz deitado no sofá e cheguei a pensar que estava a ser original, mas segundo o Flak já alguém tinha feito esse número antes de mim: o João Peste. Então lancei ao Flak o desafio de o produzir. E ele disse... fixe. Ele é sempre aquele companheiro! Com o Flak não preciso de falar muito. Mas as gravações deste disco prolongaram-se um bocadinho demais. Mas nem sempre fui eu o culpado pelos atrasos (risos)...

PERFIL

Jorge Palma nasceu a 4 de Junho de 1950 no típico bairro da Penha de França, bem no coração de Lisboa. Com apenas seis anos, iniciou os estudos de piano. Aos oito, realiza a sua primeira audição no Conservatório Nacional, onde viria a terminar o curso superior. Em 1969, integra o grupo hard rock Sindikato e três anos mais tarde estreava-se a solo, com o single ‘The Nine Billion Names Of God’. Andou pelos Estados Unidos e pelas Caraíbas de guitarra às costas e tocou no Metro de Paris, para além de ter vivido um período de exílio na Dinamarca – para fugir ao serviço militar obrigatório. Até hoje editou mais de uma dúzia de álbuns, onde dá largas à poesia das palavras e dos sons, o que já lhe valeu o título de ‘trovador errante’. É pai de dois filhos, de 11 e 24 anos.

3 comentários:

Rui disse...

Eu vou gravar a entrevista agora, a pedido do André. Creio que vai ficar com boa qualidade. Depois nós vamos disponibilizar a entrevista para quem quiser.

Rui disse...

Já estou a gravar há 37 minutos, está agora a dar a música "Eternamente tu" da Lena de Água. Às vezes há certas coisas que ficam na gravação, nomeadamente sons do do IRC e do MSN. É chato, mas pronto. São coisas subtis, e agora já não vai acontecer mais.

Rui disse...

Falei disto no tópico errado. Era no "Jorge Palma na Radar FM" que eu queria pôr. Peço desculpa.