Jorge aqui lembrou-se dessa ocorrência, e talvez levado pelo espírito depressivo e pelo ambiente pesado do poema, achou adequado adoptá-lo.
O Poema compõe-se de 4 estrofes de oito versos que são cantadas duas a duas em Dó menor, entrecortadas por um pequeno refrão sempre bisado no modo maior.
Os serões habituais
E as conversas sempre iguais
Os horóscopos, os signos e ascendentes
Mais a vida da outra sussurrada entre dentes
Os convites nos olhos embriagados
E os encontros de novo adiados
Nos ouvidos cansados ecoa
A canção de Lisboa
O poema começa por nos falar da monotonia que se esconde por detrás das relações que nem sempre correm bem e como isso conduz à solidão.
Não está só a solidão
Há tristeza e compaixão
Quando o sono acalma os corpos agitados
Pela noite atirados contra colchões errados
Há o silêncio de quem não ri nem chora
Há divórcio entre o dentro e o fora
Há quem diga que nunca foi boa
A canção de Lisboa
Na segunda estrofe há um reforço da ideia de como a solidão se afirma, mesmo quando as pessoas procuram outras que nem sempre são o amor desejado, apenas um consolo para o corpo físico.
A urgência de agarrar
Qualquer coisa para mostrar
Que afinal nós também temos mão na vida
Mesmo que seja à custa de a vivermos fingida
Um estatuto para impressionar o mundo
Não precisa de ser mais profundo
Que o marasmo que nos atordoa
Ó canção de Lisboa
Na terceira estrofe já nos é mostrada uma outra perspectiva, de como nós também temos necessidade afinal, é de nos afirmarmos custe o que custar, nem que seja através de ilusões ou dissimulações.
As vielas de néon
E as guitarras já sem som
Vão mantendo viva a tradição da fome
Que a memória deturpa e o orgulho consome
Entre o orgasmo na gruta ainda fria
E o abandono da carne vazia
Cada um no seu canto entoa
A canção de Lisboa
A quarta estrofe é o culminar disto tudo com o retorno a uma solidão profunda, após um acto sexual consumado, sem qualquer significado.
Estas quatro estrofes aparecem sempre sob a égide dum pessimismo associado ao urbanismo Lisbonense, o que talvez traduza a visão que Jorge nesta altura tinha de Lisboa: uma cidade povoada de solitários que, fingiam a sua felicidade e a dissimulavam em relações fortuitas e fracassadas e, em sinais exteriores de riqueza. Jorge tenta denunciar talvez, a hipocrisia que se apoderou da urbe portuguesa. Neste contexto, é no fundo uma canção com um certo cariz de intervenção social e um alerta para todos nós.
Tudo isto se passa musicalmente sob um condão depressivo da tal pseudo marcha fúnebre e acordes pesados. A única excepção é a pequena transição para o refrão, onde aparece uma pequena escala de blues debaixo das palavras "canção de Lisboa":

Esta transição é importante, porque o refrão aparece sempre em modo maior e com um cariz musicalmente alegre, de folia. A letra não traduz exactamente isso, mas talvez uma certa ironia ou um joguete infantil.
Mamã, mamã
Onde estás tu, mamã?
Nós sem ti não sabemos, mamã
Libertar-nos do mal
A utilização de "mamã" ao invés de mãe denota logo, uma intenção clara. Jorge procura aqui mostrar como todos nós somos vulneráveis, que, afinal, andamos perdidos e que, no fundo, ao procurarmos as relações sem sentido, buscamos sim um apoio materno que talvez já não exista ou não seja possível atingir.
Jorge canta a nossa incapacidade e o nosso desespero por não conseguir fazer nada direito e nos sentirmos frustrados, com uma aura de optimismo estonteante o que só pode remeter para uma ironia e um gozo do destino ou, quanto muito, para uma alegoria de como éramos felizes em criança quando tínhamos a “mãezinha” do nosso lado para nos livrar das alhadas e, não nos metíamos em confusões.
Estas duas atmosferas contrastantes compõem assim a “Canção de Lisboa”, que fecha tal qual começou: com a série de acordes fúnebres e, a cadenciar no acorde de dó menor, dando a entender, que a depressão urbana, por muito que tentemos fugir dela está para durar e é um ciclo sem saída.